Sábado, 24 de Novembro de 2012

Natal de um Preto Velho


Estava eu ali no meio da senzala, uma pequena vela acesa ainda custava a se apagar, e iluminava as paredes suadas do pó acumulado nos anos de solidão.
No canto próximo a velha cama de palha, repousava um velho crucifixo de madeira, talhada pelas mãos de meu avó.
Na improvisada mesa de cabeceira feita de pedaços de madeira, estava uma tolha branquíssima e em cima dela Nossa Senhora, ofertada pela sinhá.

Deveria como todas as outras noites ir dormir e descansar meu corpo, mas aquele dia era Natal, e o som vindo da casa grande anunciava um belo jantar, ouvia-se as risadas, e em meio aos copos brindando um voz ouvi-se e novamente o brinde surgia, passos de muitas pessoas eu ouvia, e percebi que chegara a hora da ceia, o senhor da casa tomou a palavra o o silencio se fez no ambiente, tal como em uma igreja aquelas pessoas começaram a rezar, percebi que aquela noite seria muito importante para eles.

Peguei meu terço entre os dedos, beijei e olhando para ele pedi para que o mundo fosse mais justo, pedi por todos que estão sofrendo, pedi para que o amor saia das mentes e poste-se nos corações, pedi simplesmente pela paz,  

Porque eles rezam meu pai, enquanto sofre o negro na senzala, como pedir a Deus por nós se nós mesmos nada fazemos por nosso semelhante, mas que tolice a deles se fartar de comida e ver que outros tem fome.

Hoje eu entendi tudo que passei, aquele sofrimento me mostrou muito, mesmo nas horas que meu corpo deitava-se no suor e sangue da chibata e não perdi a fé, mesmo quando vi meus irmão morrendo a minha frente açoitados e injustiçados, ainda assim mantive minha fé.

Quando deixei este mundo, tive a permissão de voltar para contar minha história, sentado em um banquinho de um terreiro poço ajudar as pessoas, até meu cachimbo foi ofertado por uma pessoa que me ama de verdade, não vim contar coisas de outras vidas, vim somente mostrar o amor, vim dizer que a fé esta dentro de cada coração e o alimento desta fé é a oração, quando desencarnei eu fui para um lugar cheio de luzes, um lindo jardim com flores, lá disseram se eu tinha raiva daqueles que feriram meu corpo, disse que não, pois o julgamento não pertencia a mim, e naquele momento foi me dito que deveria ajudar as pessoas que chegavam recém desencarnados, no meio de muitos encontrei o senhor dono dos escravos, no meio de uma névoa escura, estava assustado, ali estendi minha mão, segurei a dele e disse-lhe, senhor não tenha medo, estou aqui para cuidar do senhor, não julgarei seus erros, e nesses anos que estará aprendendo, serei seu amigo.

Este homem reencarnou e disse em um dia de Natal:

Pai cuida de seus filhos, brancos, negros, índios e amarelos, cuida de suas mentes, faça do seu dia um dia de reflexão, faça que todos rezem uma só oração, traga de volta o amor meu Pai, perdoe nossos pecados, perdoe aqueles que não sabem amar seu semelhante.     

Vovô Benedito da Cachoeira


Que a Divina Luz esteja entre nós 

Emidio de Ogum 
http://espadadeogum.blogspot.com 
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Natal de um Preto Velho


Estava eu ali no meio da senzala, uma pequena vela acesa ainda custava a se apagar, e iluminava as paredes suadas do pó acumulado nos anos de solidão.
No canto próximo a velha cama de palha, repousava um velho crucifixo de madeira, talhada pelas mãos de meu avó.
Na improvisada mesa de cabeceira feita de pedaços de madeira, estava uma tolha branquíssima e em cima dela Nossa Senhora, ofertada pela sinhá.

Deveria como todas as outras noites ir dormir e descansar meu corpo, mas aquele dia era Natal, e o som vindo da casa grande anunciava um belo jantar, ouvia-se as risadas, e em meio aos copos brindando um voz ouvi-se e novamente o brinde surgia, passos de muitas pessoas eu ouvia, e percebi que chegara a hora da ceia, o senhor da casa tomou a palavra o o silencio se fez no ambiente, tal como em uma igreja aquelas pessoas começaram a rezar, percebi que aquela noite seria muito importante para eles.

Peguei meu terço entre os dedos, beijei e olhando para ele pedi para que o mundo fosse mais justo, pedi por todos que estão sofrendo, pedi para que o amor saia das mentes e poste-se nos corações, pedi simplesmente pela paz,  

Porque eles rezam meu pai, enquanto sofre o negro na senzala, como pedir a Deus por nós se nós mesmos nada fazemos por nosso semelhante, mas que tolice a deles se fartar de comida e ver que outros tem fome.

Hoje eu entendi tudo que passei, aquele sofrimento me mostrou muito, mesmo nas horas que meu corpo deitava-se no suor e sangue da chibata e não perdi a fé, mesmo quando vi meus irmão morrendo a minha frente açoitados e injustiçados, ainda assim mantive minha fé.

Quando deixei este mundo, tive a permissão de voltar para contar minha história, sentado em um banquinho de um terreiro poço ajudar as pessoas, até meu cachimbo foi ofertado por uma pessoa que me ama de verdade, não vim contar coisas de outras vidas, vim somente mostrar o amor, vim dizer que a fé esta dentro de cada coração e o alimento desta fé é a oração, quando desencarnei eu fui para um lugar cheio de luzes, um lindo jardim com flores, lá disseram se eu tinha raiva daqueles que feriram meu corpo, disse que não, pois o julgamento não pertencia a mim, e naquele momento foi me dito que deveria ajudar as pessoas que chegavam recém desencarnados, no meio de muitos encontrei o senhor dono dos escravos, no meio de uma névoa escura, estava assustado, ali estendi minha mão, segurei a dele e disse-lhe, senhor não tenha medo, estou aqui para cuidar do senhor, não julgarei seus erros, e nesses anos que estará aprendendo, serei seu amigo.

Este homem reencarnou e disse em um dia de Natal:

Pai cuida de seus filhos, brancos, negros, índios e amarelos, cuida de suas mentes, faça do seu dia um dia de reflexão, faça que todos rezem uma só oração, traga de volta o amor meu Pai, perdoe nossos pecados, perdoe aqueles que não sabem amar seu semelhante.     

Vovô Benedito da Cachoeira


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