Quinta-feira, 30 de Julho de 2009

A semente de Obi

Às vezes, tratamos de assuntos que são urgentes e novos, de cujo teor sentimos falta. Outras vezes, devemos aclarar coisas que já vivemos, mas sobre as quais sentimos necessidade de aprofundar elementos ou rever o caminho percorrido. Desde alguns anos, em torno do 21 de abril, considerado internacionalmente como "o Dia da Terra", movimentos e comunidades do campo, em toda a América Latina, organizam festas ligadas ao cultivo da semente nativa ou também chamada crioula.
Falar de semente é lidar com o cotidiano da vida, o mistério mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundo da natureza. Quando, há dois mil anos, Jesus de Nazaré quis explicar aos seus contemporâneos como o projeto de Deus deveria se implantar no mundo, a primeira imagem a que recorreu foi a da semente: "Saiu o semeador a semear. Uma parte da semente caiu em terra boa, outra no meio da estrada..." (Mc 4). A semente é algo que traduz bem aquilo que une dois elementos aparentemente opostos: é algo que já está presente, mas, por outro lado, "ainda não" é a planta. É como uma criança já formada no ventre materno, mas ainda não nasceu. É semente.


As antigas tradições espirituais consideram a semente algo a ser venerado. Por causa da relação entre semente e parto, em muitas culturas tradicionais, as mulheres são as guardiãs oficiais das sementes, como sacerdotisas da vida contida em cada grão. Qual sacrário em um templo católico, as sementes são guardadas no pátio central da aldeia. Ninguém ligado a uma destas culturas pode imaginar uma semente sendo privatizada, como nunca aceitará que ela seja apenas um capital a explorar. Para as comunidades indígenas e camponesas, como para toda pessoa que em qualquer sociedade valoriza uma espiritualidade ecológica, cada semente viva é o resumo de toda a energia cósmica, da potencialidade da vida. A evolução permanente do cosmos, em um processo de criação incessante, é ali retratada como em uma espécie de filme inacabado. Há alguns anos, um famoso cientista inglês escreveu um livro que trata não apenas de sementes, mas do surgimento e da evolução do cosmos. Entretanto, ele deu a este livro um título muito sugestivo e indicador desta verdade: "o universo numa casca de noz" [2].

Infelizmente, para as empresas capitalistas e para a visão de mundo que elas divulgam, as sementes são apenas mercadorias a serem comercializadas. É com esta mentalidade que as multinacionais modificam o DNA das sementes, criam sementes transgênicas e as impõem ao mundo inteiro como mais resistentes às pragas e, portanto, mais lucrativas.

As pesquisas sobre os efeitos para a saúde humana e dos animais, provocados por uma alimentação baseada em sementes geneticamente modificadas não estão ainda concluídas. Há quem pense que as poderosas multinacionais interessadas no comércio dos transgênicos não permitem a divulgação mesmo parcial dos resultados. Por outro lado, cada vez mais a parte mais consciente da humanidade se organiza para que toda manipulação genética respeite a biodiversidade. A humanidade pode ser parteira da semente para ajudá-la a nascer, mas a vida que dela brota não é propriedade de nenhuma empresa e não pode contaminar as outras espécies. Ora, as sementes transgênicas acabam se impondo e destroem a variedade das sementes nativas. No Sudoeste da Ásia, os lavradores contavam com mais de dez mil variedades de arroz. Os agricultores selecionavam as próprias sementes. Hoje, depois que chegaram as multinacionais com sementes transgênicas, só existem na região cinco variedades de arroz. Esta é a tendência da agricultura mundial, se a sociedade civil não reagir.

Ao contrário desta invasão colonialista, a semente nativa, também chamada de crioula, tem nela inscrita a marca da presença e da resistência do povo da Terra. É símbolo de uma agricultura que persevera no cuidado com a vida da humanidade e da natureza. Entretanto, é mais ainda do que apenas sinal e símbolo. É instrumento da autonomia do lavrador que, através das sementes crioulas, não precisa depender das multinacionais com suas sementes de laboratório e seus defensivos agrícolas.

Nas religiões, existe uma coisa que se chama "sacramento". Algo para ser sacramento deve ser não apenas sinal, mas, ao mesmo tempo, instrumento eficaz da libertação e de vida. Em muitas culturas indígenas, o cachimbo da paz é sinal importante e instrumento de reconciliação. No Candomblé, comer juntos a comida do santo é mais do que simples refeição. É sacramento porque simboliza a comunhão com o Orixá. Do mesmo modo, mães de santo usam determinadas sementes de origem africana para saber o Odu, o misterioso caminho de cada pessoa e na festa da primavera (no Candomblé, é a festa das águas de Oxalá), cada pessoa tem um pano amarrado na cabeça, no qual está uma semente sagrada de Obi que, com a água será também oferecida ao Orixá. Isso significa que a semente é sagrada e nos revela qual é a semente interior do caminho que cada pessoa guarda na mente e no coração.

Conforme os Evangelhos, Jesus teve contato com os zelotas, um tipo de grupo revolucionário imediatista que queria mudar o mundo sem primeiramente educar o povo nem esperar que as condições históricas permitam a mudança. Jesus então contou a eles uma parábola que todo lavrador conhece por experiência: "O projeto divino (na linguagem de Jesus, o reino) é como um lavrador que planta a semente na terra. Depois disso, quer ele esteja velando no campo ou esteja dormindo, a semente, por sua própria força germina e cresce, sem que nem ele saiba como" (Mc 4, 26).
publicado por espadadeogum às 14:04
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


.posts recentes

. Filhos de Ogum em 2015

. Oração para Ogum regente ...

. Simpatias para o ano novo...

. Tatuagem de caveira

. Previsões para 2015 Orixá...

. Tata Caveira

. Pai Nosso em Aramaico

. Água e a espiritualidade ...

. Oya Tempo

. Linha do Oriente na Umban...

.arquivos

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds