Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Fenix - um pássaro que é único



A Fenix

Na Índia vive um pássaro que é único: a encantadora fênix tem um bico
extraordinariamente longo e muito duro, perfurado com uma centena de
orifícios, como uma flauta. Não tem fêmea, vive isolada e seu reinado
é absoluto. Cada abertura em seu bico produz um som diferente, e cada
um desses sons revela um segredo particular, sutil e profundo. Quando
ela faz ouvir essas notas plangentes, os pássaros e os peixes agitam-
se, as bestas mais ferozes entram em êxtase; depois todos silenciam.
Foi desse canto que um sábio aprendeu a ciência da música. A fênix
vive cerca de mil anos e conhece de antemão a hora de sua morte.

Quando ela sente aproximar-se o momento de retirar o seu coração do
mundo, e todos os indícios lhe confirmam que deve partir, constrói
uma pira reunindo ao redor de sí lenha e folhas de palmeira. Em meio
a essas folhas entoa tristes melodias, e cada nota lamentosa que
emite é uma evidência de sua alma imaculada.

Enquanto canta, a amarga dor da morte penetra seu íntimo e ela treme
como uma folha. Todos os pássaros e animais são atraídos por seu
canto, que soa agora como as trombetas do Último Dia; todos aproximam-
se para assistir o espetáculo de sua morte, e, por seu exemplo, cada
um deles determina-se a deixar o mundo para trás e resigna-se a
morrer. De fato, nesse dia um grande número de animais morre com o
coração ensanguentado diante da fênix, por causa da tristeza de que a
veem presa. É um dia extraordinário: alguns soluçam em simpatia,
outros perdem os sentidos, outros ainda morrem ao ouvir seu lamento
apaixonado.

Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e
agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma
seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e
madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se
brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a
última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de
cinzas.

Aconteceu alguma vez a alguém deste mundo renascer depois da morte?
Mesmo que te fosse concedida uma vida tão longa quanto a da fênix,
terias de morrer quando a medida de tua vida fosse preenchida.

A fênix permaneceu por mil anos completamente só, no lamento e na
dor, sem companheira nem progenitora. Não contraiu laços com ninguém
neste mundo, nenhuma criança alegrou sua idade e, ao final de sua
vida, quando teve de deixar de existir, lançou suas cinzas ao vento,
a fim de que saibas que ninguém pode escapar à morte, não importa que
astúcia empregue. Em todo o mundo não há ninguém que não morra.

Sabe, pelo milagre da fênix, que ninguém tem abrigo contra a morte.
Ainda que a morte seja dura e tirânica, é preciso conviver com ela, e
embora muitas provações caiam sobre nós, a morte permanece a mais
dura prova que o Caminho nos exigirá".

por Farid ud-Din Attar (em "A Linguagem dos Pássaros")

Axé a todos
Emidio de Ogum
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Na Índia vive um pássaro que é único: a encantadora fênix tem um bico
extraordinariamente longo e muito duro, perfurado com uma centena de
orifícios, como uma flauta. Não tem fêmea, vive isolada e seu reinado
é absoluto. Cada abertura em seu bico produz um som diferente, e cada
um desses sons revela um segredo particular, sutil e profundo. Quando
ela faz ouvir essas notas plangentes, os pássaros e os peixes agitam-
se, as bestas mais ferozes entram em êxtase; depois todos silenciam.
Foi desse canto que um sábio aprendeu a ciência da música. A fênix
vive cerca de mil anos e conhece de antemão a hora de sua morte.

Quando ela sente aproximar-se o momento de retirar o seu coração do
mundo, e todos os indícios lhe confirmam que deve partir, constrói
uma pira reunindo ao redor de sí lenha e folhas de palmeira. Em meio
a essas folhas entoa tristes melodias, e cada nota lamentosa que
emite é uma evidência de sua alma imaculada.

Enquanto canta, a amarga dor da morte penetra seu íntimo e ela treme
como uma folha. Todos os pássaros e animais são atraídos por seu
canto, que soa agora como as trombetas do Último Dia; todos aproximam-
se para assistir o espetáculo de sua morte, e, por seu exemplo, cada
um deles determina-se a deixar o mundo para trás e resigna-se a
morrer. De fato, nesse dia um grande número de animais morre com o
coração ensanguentado diante da fênix, por causa da tristeza de que a
veem presa. É um dia extraordinário: alguns soluçam em simpatia,
outros perdem os sentidos, outros ainda morrem ao ouvir seu lamento
apaixonado.

Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e
agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma
seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e
madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se
brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a
última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de
cinzas.

Aconteceu alguma vez a alguém deste mundo renascer depois da morte?
Mesmo que te fosse concedida uma vida tão longa quanto a da fênix,
terias de morrer quando a medida de tua vida fosse preenchida.

A fênix permaneceu por mil anos completamente só, no lamento e na
dor, sem companheira nem progenitora. Não contraiu laços com ninguém
neste mundo, nenhuma criança alegrou sua idade e, ao final de sua
vida, quando teve de deixar de existir, lançou suas cinzas ao vento,
a fim de que saibas que ninguém pode escapar à morte, não importa que
astúcia empregue. Em todo o mundo não há ninguém que não morra.

Sabe, pelo milagre da fênix, que ninguém tem abrigo contra a morte.
Ainda que a morte seja dura e tirânica, é preciso conviver com ela, e
embora muitas provações caiam sobre nós, a morte permanece a mais
dura prova que o Caminho nos exigirá".

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é absoluto. Cada abertura em seu bico produz um som diferente, e cada
um desses sons revela um segredo particular, sutil e profundo. Quando
ela faz ouvir essas notas plangentes, os pássaros e os peixes agitam-
se, as bestas mais ferozes entram em êxtase; depois todos silenciam.
Foi desse canto que um sábio aprendeu a ciência da música. A fênix
vive cerca de mil anos e conhece de antemão a hora de sua morte.

Quando ela sente aproximar-se o momento de retirar o seu coração do
mundo, e todos os indícios lhe confirmam que deve partir, constrói
uma pira reunindo ao redor de sí lenha e folhas de palmeira. Em meio
a essas folhas entoa tristes melodias, e cada nota lamentosa que
emite é uma evidência de sua alma imaculada.

Enquanto canta, a amarga dor da morte penetra seu íntimo e ela treme
como uma folha. Todos os pássaros e animais são atraídos por seu
canto, que soa agora como as trombetas do Último Dia; todos aproximam-
se para assistir o espetáculo de sua morte, e, por seu exemplo, cada
um deles determina-se a deixar o mundo para trás e resigna-se a
morrer. De fato, nesse dia um grande número de animais morre com o
coração ensanguentado diante da fênix, por causa da tristeza de que a
veem presa. É um dia extraordinário: alguns soluçam em simpatia,
outros perdem os sentidos, outros ainda morrem ao ouvir seu lamento
apaixonado.

Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e
agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma
seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e
madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se
brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a
última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de
cinzas.

Aconteceu alguma vez a alguém deste mundo renascer depois da morte?
Mesmo que te fosse concedida uma vida tão longa quanto a da fênix,
terias de morrer quando a medida de tua vida fosse preenchida.

A fênix permaneceu por mil anos completamente só, no lamento e na
dor, sem companheira nem progenitora. Não contraiu laços com ninguém
neste mundo, nenhuma criança alegrou sua idade e, ao final de sua
vida, quando teve de deixar de existir, lançou suas cinzas ao vento,
a fim de que saibas que ninguém pode escapar à morte, não importa que
astúcia empregue. Em todo o mundo não há ninguém que não morra.

Sabe, pelo milagre da fênix, que ninguém tem abrigo contra a morte.
Ainda que a morte seja dura e tirânica, é preciso conviver com ela, e
embora muitas provações caiam sobre nós, a morte permanece a mais
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extraordinariamente longo e muito duro, perfurado com uma centena de
orifícios, como uma flauta. Não tem fêmea, vive isolada e seu reinado
é absoluto. Cada abertura em seu bico produz um som diferente, e cada
um desses sons revela um segredo particular, sutil e profundo. Quando
ela faz ouvir essas notas plangentes, os pássaros e os peixes agitam-
se, as bestas mais ferozes entram em êxtase; depois todos silenciam.
Foi desse canto que um sábio aprendeu a ciência da música. A fênix
vive cerca de mil anos e conhece de antemão a hora de sua morte.

Quando ela sente aproximar-se o momento de retirar o seu coração do
mundo, e todos os indícios lhe confirmam que deve partir, constrói
uma pira reunindo ao redor de sí lenha e folhas de palmeira. Em meio
a essas folhas entoa tristes melodias, e cada nota lamentosa que
emite é uma evidência de sua alma imaculada.

Enquanto canta, a amarga dor da morte penetra seu íntimo e ela treme
como uma folha. Todos os pássaros e animais são atraídos por seu
canto, que soa agora como as trombetas do Último Dia; todos aproximam-
se para assistir o espetáculo de sua morte, e, por seu exemplo, cada
um deles determina-se a deixar o mundo para trás e resigna-se a
morrer. De fato, nesse dia um grande número de animais morre com o
coração ensanguentado diante da fênix, por causa da tristeza de que a
veem presa. É um dia extraordinário: alguns soluçam em simpatia,
outros perdem os sentidos, outros ainda morrem ao ouvir seu lamento
apaixonado.

Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e
agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma
seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e
madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se
brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a
última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de
cinzas.

Aconteceu alguma vez a alguém deste mundo renascer depois da morte?
Mesmo que te fosse concedida uma vida tão longa quanto a da fênix,
terias de morrer quando a medida de tua vida fosse preenchida.

A fênix permaneceu por mil anos completamente só, no lamento e na
dor, sem companheira nem progenitora. Não contraiu laços com ninguém
neste mundo, nenhuma criança alegrou sua idade e, ao final de sua
vida, quando teve de deixar de existir, lançou suas cinzas ao vento,
a fim de que saibas que ninguém pode escapar à morte, não importa que
astúcia empregue. Em todo o mundo não há ninguém que não morra.

Sabe, pelo milagre da fênix, que ninguém tem abrigo contra a morte.
Ainda que a morte seja dura e tirânica, é preciso conviver com ela, e
embora muitas provações caiam sobre nós, a morte permanece a mais
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é absoluto. Cada abertura em seu bico produz um som diferente, e cada
um desses sons revela um segredo particular, sutil e profundo. Quando
ela faz ouvir essas notas plangentes, os pássaros e os peixes agitam-
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Foi desse canto que um sábio aprendeu a ciência da música. A fênix
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uma pira reunindo ao redor de sí lenha e folhas de palmeira. Em meio
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emite é uma evidência de sua alma imaculada.

Enquanto canta, a amarga dor da morte penetra seu íntimo e ela treme
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um deles determina-se a deixar o mundo para trás e resigna-se a
morrer. De fato, nesse dia um grande número de animais morre com o
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veem presa. É um dia extraordinário: alguns soluçam em simpatia,
outros perdem os sentidos, outros ainda morrem ao ouvir seu lamento
apaixonado.

Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e
agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma
seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e
madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se
brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a
última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de
cinzas.

Aconteceu alguma vez a alguém deste mundo renascer depois da morte?
Mesmo que te fosse concedida uma vida tão longa quanto a da fênix,
terias de morrer quando a medida de tua vida fosse preenchida.

A fênix permaneceu por mil anos completamente só, no lamento e na
dor, sem companheira nem progenitora. Não contraiu laços com ninguém
neste mundo, nenhuma criança alegrou sua idade e, ao final de sua
vida, quando teve de deixar de existir, lançou suas cinzas ao vento,
a fim de que saibas que ninguém pode escapar à morte, não importa que
astúcia empregue. Em todo o mundo não há ninguém que não morra.

Sabe, pelo milagre da fênix, que ninguém tem abrigo contra a morte.
Ainda que a morte seja dura e tirânica, é preciso conviver com ela, e
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se, as bestas mais ferozes entram em êxtase; depois todos silenciam.
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outros perdem os sentidos, outros ainda morrem ao ouvir seu lamento
apaixonado.

Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e
agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma
seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e
madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se
brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a
última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de
cinzas.

Aconteceu alguma vez a alguém deste mundo renascer depois da morte?
Mesmo que te fosse concedida uma vida tão longa quanto a da fênix,
terias de morrer quando a medida de tua vida fosse preenchida.

A fênix permaneceu por mil anos completamente só, no lamento e na
dor, sem companheira nem progenitora. Não contraiu laços com ninguém
neste mundo, nenhuma criança alegrou sua idade e, ao final de sua
vida, quando teve de deixar de existir, lançou suas cinzas ao vento,
a fim de que saibas que ninguém pode escapar à morte, não importa que
astúcia empregue. Em todo o mundo não há ninguém que não morra.

Sabe, pelo milagre da fênix, que ninguém tem abrigo contra a morte.
Ainda que a morte seja dura e tirânica, é preciso conviver com ela, e
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Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

A Historia de Miranez



Fernando Miranez de Olivídeo era filho de casal nobre do norte da Espanha.
Estudioso, aprofundava-se na história dos povos e nações da Terra. Deteve-se com interesse na descoberta das Américas.
Tinha notícias dos silvícolas, habitantes dessa nação nova e da escravidão em desenvolvimento, imposta pelos estrangeiros conquistadores, não aceita pelos primeiros, que se revoltavam.
Acompanhou interessadamente a implantação do trabalho escravo do homem de raça negra, levado à força do continente africano, que, por sua característica passiva, aceitava o grilhão e o açoite, servindo aos interesses daqueles que avidamente se apossaram das terras.
Fernando era conhecido de Felipe IV, rei de Espanha, que sabia de seus princípios de integridade e os dotes de elevada moral de que era portador.
Como tinha planos relativos a ele, durante uma entrevista que lhe concedera, em caráter íntimo, Felipe dá início à execução dos mesmos, falando-lhe convincente:
‘- Caro amigo, conheço vossos dotes e vos considero pessoa grata da Família Real, que conta com eles para defender seus interesses, bem como os de nossa Espanha.
Sabemos que Portugal começa a se levantar de novo e a sua ganância por ouro, prata e pedras preciosas é desmedida. Entende que ninguém tem direitos sobre as terras que, por acaso, um de seus navegadores descobriu. Por isso, resolvi constituir-vos meu representante.
Ide, meu filho, para a terra adornada pela cruz formada por cintilantes estrelas. Sereis os ouvidos do Rei e a boca de Espanha. Sereis dotado das instruções do que devereis fazer, bem como das credenciais que vos darão poderes de Chefe de Estado. Depois de tudo consumado, tereis a vossa glória; sereis imortalizado pela história e tereis o reconhecimento de toda a Espanha. Em nome dela, eu vos abençôo.’
Miranez, a tudo ouvia pacientemente, atento às intenções ocultas de Felipe, que ele bem identificava. Contrariava-o conviver com interesses da ordem que ele tanto subestimava, mas sua intuição o prevenia da oportunidade de realizar as suas íntimas aspirações e anseios, que eram conhecer e viver nas Terras de Santa Cruz, a fim de participar de sua preparação como Pátria do Evangelho.
O íntimo do seu ser era de total alegria, quando respondeu ao monarca:
‘- Majestade, conheço vosso ideal em relação à Espanha e rogo a Deus para vos ajudar a formar nobres idéias em benefício do povo. Eu vos agradeço de coração e serei eternamente grato pela oportunidade que ora me ofereceis de conhecer novas terras, as quais já admiro mesmo antes de vê-las. Garanto a Vossa Majestade que vamos fazer lá muitas coisas agradáveis a Deus.’
E curvando-se respeitosamente ante o soberano que o despedira entusiasticamente, retirou-se. O rei passaria uma noite rememorando as palavras de Fernando, sem conseguir entender o seu sábio e elevado sentido, sem, contudo, deixar de confiar no nobre súdito. Além disso, tinha interesse em sua saída da Espanha.
Assim, em um dia do ano de 1649, em que reinava em Roma Inocêncio X, ou João Batista Panfili, desembarcava no litoral do Brasil, secretamente, na condição de turista, o enviado do rei da Espanha.
Desceu Miranez pela primeira vez em corpo físico, nas terras com as quais sempre sonhara. Como que agindo segundo os ditames do coração, descalçou as botas e pisou a terra, sentindo-a sob seus pés, como se identificando com ela, recebendo-lhe o calor. Ao mesmo tempo, lágrimas que marejavam seus olhos caíam no solo generoso que as recebia, umedecendo-se com elas, ocorrendo desse modo uma permuta de valores, cujo resultados benéficos seriam constatados através dos tempos.
Acontecimento notável em sua chegada foi o fato de vários índios que se encontravam na praia virem ao seu encontro como que para recepcioná-lo, ao tempo em que o pajé da tribo a ele se dirigia e, apontando para o seu lado direito, exclamava: ‘Babagi! Babaji!’
Babaji era uma divindade indígena, tida pelos estranhos como uma lenda, que curava os enfermos através dos curandeiros das tribos. Era, na realidade, uma entidade espiritual e vinha ao lado de Fernando, ajudando-o a andar na areia onde seus pés deslizavam. Este, logo se viu cercado pelos novos amigos, que nele sentiam condições de proporcionar alívio aos sofrimentos e perseguições por que vinham passando, ante o domínio dos invasores estrangeiros.
Apesar de ainda não falar seu idioma, entendia-os pelos gestos e por intuição, o que denotava a afinidade existente. Assim, tendo se misturado com os nativos, ninguém suspeitava de sua condição de súdito espanhol a serviço secreto do rei.
Em curto espaço de tempo, Fernando já assimilara os diversos dialetos indígenas e africanos, movimentando-se com desenvoltura entre os humildes.
Em 1653, desceu no Maranhão, onde se encontrava Fernando, o temido e pregador, representante de Roma e de Portugal; Padre Antônio Vieira, que em seus famosos sermões acionava forças desconhecidas e dominava com facilidade aqueles que o ouviam. Era esse homem que Felipe IV, rei da Espanha, temia retornasse ao Brasil.
Em cumprimento à missão de que estava incumbido, comunicava ao seu soberano os acontecimentos que poderiam ser benéficos ao Brasil, omitindo notícias que poderiam prejudicar os povos que nele já lançavam raízes.
Certa noite, quando contemplava as estrelas, sobreveio forte lembrança da pátria distante, onde dispunha de inúmeros e valiosos bens, entre propriedades e terras abundantes. Enquanto meditava se deveria regressar à Espanha, sentiu uma voz suave, como se nascesse dentro de sua consciência, recomendando-lhe: ‘Vai, vende todos os teus bens, distribui-os entre os pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me.’ Surpreso, sentia que aquela voz era sua conhecida; mas, de onde? Parecia-lhe que já a escutara antes, mas quando? Achava-se perdido no oceano dos séculos. Contudo, a voz fez-se ouvir novamente: ‘Fernando; podes vender todas as tuas posses na Espanha e distribuir o dinheiro entre os necessitados de tua pátria. Os daqui, necessitando passar pelos processos renovadores, precisam mais da tua riqueza mental, do resultado de tuas mãos operosas, do tesouro armazenado em teu coração e da tua presença confortadora’.
Miranez, então, resolveu enviar procuração a amigos de sua confiança, autorizando-os a dispor dos seus bens e distribuir o resultado entre os carentes e sofredores da Península Ibérica.
Não chegou a ficar sabendo o que foi feito de suas riquezas materiais, porém, passou a viver um estado de consciência tranqüila, única riqueza que acompanha seus portadores eternidade a fora.
Após aquelas providências, sua vida em muito mudou. Aquele homem culto e fascinante foi descoberto pelos catequizadores entre os índios e os escravos africanos, como pastor de dois rebanhos. Alguns índios e negros não se davam bem, hostilizando-se mutuamente. Trabalhando arduamente pela aproximação e convivência das duas raças, em pouco tempo seus esforços eram coroados de êxito, quando índios e negros festejavam juntos suas tradições, unidos pelos laços da amizade e do sofrimento.
Miranez, então, passou a freqüentar o grupo de catequizadores por encontrar ali campo propício à prática dos seus ideais. Como resultado de seu trabalho e esforço conjunto, mais tarde foi promulgada, em 1680, a lei de proteção aos índios.
Junto com jovens escravos, que vez por outra recebiam permissão de seus senhores para visitarem seus pais e avós, Miranez, certa manhã, buscou os casebres para rever seus tutelados, levando-lhes o conforto de sua palavra fraterna e confortadora. Todos o tinham como ‘Pai Branco’, ‘Filho do Sol’ ou ‘Homem que veio da Luz’.
Ao levantar a cabeça, fixando o olhar nas nuvens, como costumava fazer, punha o coração ao alto e a mente em sintonia com o Todo Poderoso. O ambiente se asserenava, envolvendo em suaves vibrações aqueles que o cercavam.
Ao regressar, passeando a beira de murmurante regato de águas cristalinas, acompanhado, como de costume, por uma velha preta, ao passar beirando um barranco onde a vegetação se adensava, foi atacado por perigosa e venenosa jaracussu, cuja picada comumente resulta mortal, sendo atingido na perna, abaixo do joelho.
A preta velha viu o réptil dando o bote e a água do riacho tingir-se de sangue. Saiu a correr para o povoado em busca da velha benzedeira Pari, que nos seus noventa anos a muitos salvara pelos seus dons de curar várias enfermidades. Ao ser localizada e informada do ocorrido, a velha Pari, já acostumada a essas emergências, apanhou alguns apetrechos e saiu pressurosa em socorro ao Pai Branco.
Miranez, já com muita experiências vividas entre índios e negros, também tomara seus cuidados: lembrando-se de um cordão com vários nós intercalados que carregava em seu bornal, tomou-o e com ele amarrou a perna ofendida, na altura do joelho, impedindo a circulação. Tal cordão ele recebera de sua mãe querida, nos minutos finais de sua vida na terra, explicando-lhe sua origem. Pertencera a um bondoso pároco português que se dedicava à cura. Em seus últimos momentos, disse-lhe: ‘Meu filho, quando o velho padre me passou este cordão, de seus dedos desprendiam-se pequenos raios de luz que eram absorvidos pelos nós do cordão. Carreguei-o comigo por vários anos e muitas vezes utilizei-o em favor do alívio das pessoas. Agora, passo-o a você, para que seja usado em seus momentos de dificuldade e de aflições.’ Abençoando-o, desfalecera e regressara à pátria espiritual.
A negra Pari, chegando, fez com que Miranez se assentasse num lajedo, levantasse os olhos e, como se conversasse com alguém invisível, pronunciava palavras ininteligíveis. Em dado momento, colocou os lábios sobre o ferimento e sugou por várias vezes o sangue já enegrecido, cuspindo-o para o lado. A seguir, colocou algumas ervas na boca, mastigou-as e tornou a cuspir, lavando-a nas águas do riacho. Torna a repetir a operação, colocando as ervas maceradas sobre o ferimento, que logo parou de doer.
Com um suspiro profundo e se recompondo, a boa escrava retirou o cordão benfazejo da perna de Miranez, ajudou-o a caminhar em demanda a seu casebre, onde o fez ingerir uma beberagem. Miranez sentia cada vez mais gratidão e amor por aquela gente simples, filha de Deus, que, dentro do possível, tudo fazia em seu benefício.
Após anos de atuação entre aqueles que convivia, deu-se sua passagem para o plano espiritual num quadro de elevada suavidade. Os negros e os índios catequizados formavam extensa fila para beijar-lhe as mãos, que tanto os ajudaram a viver. Enquanto esteve lúcido, Miranez abençoava-os, um por um.
Nos momentos derradeiros, Fernando Miranez de Olivídeo percebeu a presença da mãe extremosa, bem como de sublimada entidade que ele prefere não identificar, por julgar não merecer tamanha honra.
Com lágrimas nos olhos, Miranez desprendeu –se do vaso físico e já fora dele, chorou de felicidade e agradecimento, por ter ingressado no Brasil pelas portas do amor e da caridade, que lhe foram abertas por Jesus.

LIVRO: Iniciação
AUTOR: João Nunes Maia 


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A Historia de Miranez



Fernando Miranez de Olivídeo era filho de casal nobre do norte da Espanha.
Estudioso, aprofundava-se na história dos povos e nações da Terra. Deteve-se com interesse na descoberta das Américas.
Tinha notícias dos silvícolas, habitantes dessa nação nova e da escravidão em desenvolvimento, imposta pelos estrangeiros conquistadores, não aceita pelos primeiros, que se revoltavam.
Acompanhou interessadamente a implantação do trabalho escravo do homem de raça negra, levado à força do continente africano, que, por sua característica passiva, aceitava o grilhão e o açoite, servindo aos interesses daqueles que avidamente se apossaram das terras.
Fernando era conhecido de Felipe IV, rei de Espanha, que sabia de seus princípios de integridade e os dotes de elevada moral de que era portador.
Como tinha planos relativos a ele, durante uma entrevista que lhe concedera, em caráter íntimo, Felipe dá início à execução dos mesmos, falando-lhe convincente:
‘- Caro amigo, conheço vossos dotes e vos considero pessoa grata da Família Real, que conta com eles para defender seus interesses, bem como os de nossa Espanha.
Sabemos que Portugal começa a se levantar de novo e a sua ganância por ouro, prata e pedras preciosas é desmedida. Entende que ninguém tem direitos sobre as terras que, por acaso, um de seus navegadores descobriu. Por isso, resolvi constituir-vos meu representante.
Ide, meu filho, para a terra adornada pela cruz formada por cintilantes estrelas. Sereis os ouvidos do Rei e a boca de Espanha. Sereis dotado das instruções do que devereis fazer, bem como das credenciais que vos darão poderes de Chefe de Estado. Depois de tudo consumado, tereis a vossa glória; sereis imortalizado pela história e tereis o reconhecimento de toda a Espanha. Em nome dela, eu vos abençôo.’
Miranez, a tudo ouvia pacientemente, atento às intenções ocultas de Felipe, que ele bem identificava. Contrariava-o conviver com interesses da ordem que ele tanto subestimava, mas sua intuição o prevenia da oportunidade de realizar as suas íntimas aspirações e anseios, que eram conhecer e viver nas Terras de Santa Cruz, a fim de participar de sua preparação como Pátria do Evangelho.
O íntimo do seu ser era de total alegria, quando respondeu ao monarca:
‘- Majestade, conheço vosso ideal em relação à Espanha e rogo a Deus para vos ajudar a formar nobres idéias em benefício do povo. Eu vos agradeço de coração e serei eternamente grato pela oportunidade que ora me ofereceis de conhecer novas terras, as quais já admiro mesmo antes de vê-las. Garanto a Vossa Majestade que vamos fazer lá muitas coisas agradáveis a Deus.’
E curvando-se respeitosamente ante o soberano que o despedira entusiasticamente, retirou-se. O rei passaria uma noite rememorando as palavras de Fernando, sem conseguir entender o seu sábio e elevado sentido, sem, contudo, deixar de confiar no nobre súdito. Além disso, tinha interesse em sua saída da Espanha.
Assim, em um dia do ano de 1649, em que reinava em Roma Inocêncio X, ou João Batista Panfili, desembarcava no litoral do Brasil, secretamente, na condição de turista, o enviado do rei da Espanha.
Desceu Miranez pela primeira vez em corpo físico, nas terras com as quais sempre sonhara. Como que agindo segundo os ditames do coração, descalçou as botas e pisou a terra, sentindo-a sob seus pés, como se identificando com ela, recebendo-lhe o calor. Ao mesmo tempo, lágrimas que marejavam seus olhos caíam no solo generoso que as recebia, umedecendo-se com elas, ocorrendo desse modo uma permuta de valores, cujo resultados benéficos seriam constatados através dos tempos.
Acontecimento notável em sua chegada foi o fato de vários índios que se encontravam na praia virem ao seu encontro como que para recepcioná-lo, ao tempo em que o pajé da tribo a ele se dirigia e, apontando para o seu lado direito, exclamava: ‘Babagi! Babaji!’
Babaji era uma divindade indígena, tida pelos estranhos como uma lenda, que curava os enfermos através dos curandeiros das tribos. Era, na realidade, uma entidade espiritual e vinha ao lado de Fernando, ajudando-o a andar na areia onde seus pés deslizavam. Este, logo se viu cercado pelos novos amigos, que nele sentiam condições de proporcionar alívio aos sofrimentos e perseguições por que vinham passando, ante o domínio dos invasores estrangeiros.
Apesar de ainda não falar seu idioma, entendia-os pelos gestos e por intuição, o que denotava a afinidade existente. Assim, tendo se misturado com os nativos, ninguém suspeitava de sua condição de súdito espanhol a serviço secreto do rei.
Em curto espaço de tempo, Fernando já assimilara os diversos dialetos indígenas e africanos, movimentando-se com desenvoltura entre os humildes.
Em 1653, desceu no Maranhão, onde se encontrava Fernando, o temido e pregador, representante de Roma e de Portugal; Padre Antônio Vieira, que em seus famosos sermões acionava forças desconhecidas e dominava com facilidade aqueles que o ouviam. Era esse homem que Felipe IV, rei da Espanha, temia retornasse ao Brasil.
Em cumprimento à missão de que estava incumbido, comunicava ao seu soberano os acontecimentos que poderiam ser benéficos ao Brasil, omitindo notícias que poderiam prejudicar os povos que nele já lançavam raízes.
Certa noite, quando contemplava as estrelas, sobreveio forte lembrança da pátria distante, onde dispunha de inúmeros e valiosos bens, entre propriedades e terras abundantes. Enquanto meditava se deveria regressar à Espanha, sentiu uma voz suave, como se nascesse dentro de sua consciência, recomendando-lhe: ‘Vai, vende todos os teus bens, distribui-os entre os pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me.’ Surpreso, sentia que aquela voz era sua conhecida; mas, de onde? Parecia-lhe que já a escutara antes, mas quando? Achava-se perdido no oceano dos séculos. Contudo, a voz fez-se ouvir novamente: ‘Fernando; podes vender todas as tuas posses na Espanha e distribuir o dinheiro entre os necessitados de tua pátria. Os daqui, necessitando passar pelos processos renovadores, precisam mais da tua riqueza mental, do resultado de tuas mãos operosas, do tesouro armazenado em teu coração e da tua presença confortadora’.
Miranez, então, resolveu enviar procuração a amigos de sua confiança, autorizando-os a dispor dos seus bens e distribuir o resultado entre os carentes e sofredores da Península Ibérica.
Não chegou a ficar sabendo o que foi feito de suas riquezas materiais, porém, passou a viver um estado de consciência tranqüila, única riqueza que acompanha seus portadores eternidade a fora.
Após aquelas providências, sua vida em muito mudou. Aquele homem culto e fascinante foi descoberto pelos catequizadores entre os índios e os escravos africanos, como pastor de dois rebanhos. Alguns índios e negros não se davam bem, hostilizando-se mutuamente. Trabalhando arduamente pela aproximação e convivência das duas raças, em pouco tempo seus esforços eram coroados de êxito, quando índios e negros festejavam juntos suas tradições, unidos pelos laços da amizade e do sofrimento.
Miranez, então, passou a freqüentar o grupo de catequizadores por encontrar ali campo propício à prática dos seus ideais. Como resultado de seu trabalho e esforço conjunto, mais tarde foi promulgada, em 1680, a lei de proteção aos índios.
Junto com jovens escravos, que vez por outra recebiam permissão de seus senhores para visitarem seus pais e avós, Miranez, certa manhã, buscou os casebres para rever seus tutelados, levando-lhes o conforto de sua palavra fraterna e confortadora. Todos o tinham como ‘Pai Branco’, ‘Filho do Sol’ ou ‘Homem que veio da Luz’.
Ao levantar a cabeça, fixando o olhar nas nuvens, como costumava fazer, punha o coração ao alto e a mente em sintonia com o Todo Poderoso. O ambiente se asserenava, envolvendo em suaves vibrações aqueles que o cercavam.
Ao regressar, passeando a beira de murmurante regato de águas cristalinas, acompanhado, como de costume, por uma velha preta, ao passar beirando um barranco onde a vegetação se adensava, foi atacado por perigosa e venenosa jaracussu, cuja picada comumente resulta mortal, sendo atingido na perna, abaixo do joelho.
A preta velha viu o réptil dando o bote e a água do riacho tingir-se de sangue. Saiu a correr para o povoado em busca da velha benzedeira Pari, que nos seus noventa anos a muitos salvara pelos seus dons de curar várias enfermidades. Ao ser localizada e informada do ocorrido, a velha Pari, já acostumada a essas emergências, apanhou alguns apetrechos e saiu pressurosa em socorro ao Pai Branco.
Miranez, já com muita experiências vividas entre índios e negros, também tomara seus cuidados: lembrando-se de um cordão com vários nós intercalados que carregava em seu bornal, tomou-o e com ele amarrou a perna ofendida, na altura do joelho, impedindo a circulação. Tal cordão ele recebera de sua mãe querida, nos minutos finais de sua vida na terra, explicando-lhe sua origem. Pertencera a um bondoso pároco português que se dedicava à cura. Em seus últimos momentos, disse-lhe: ‘Meu filho, quando o velho padre me passou este cordão, de seus dedos desprendiam-se pequenos raios de luz que eram absorvidos pelos nós do cordão. Carreguei-o comigo por vários anos e muitas vezes utilizei-o em favor do alívio das pessoas. Agora, passo-o a você, para que seja usado em seus momentos de dificuldade e de aflições.’ Abençoando-o, desfalecera e regressara à pátria espiritual.
A negra Pari, chegando, fez com que Miranez se assentasse num lajedo, levantasse os olhos e, como se conversasse com alguém invisível, pronunciava palavras ininteligíveis. Em dado momento, colocou os lábios sobre o ferimento e sugou por várias vezes o sangue já enegrecido, cuspindo-o para o lado. A seguir, colocou algumas ervas na boca, mastigou-as e tornou a cuspir, lavando-a nas águas do riacho. Torna a repetir a operação, colocando as ervas maceradas sobre o ferimento, que logo parou de doer.
Com um suspiro profundo e se recompondo, a boa escrava retirou o cordão benfazejo da perna de Miranez, ajudou-o a caminhar em demanda a seu casebre, onde o fez ingerir uma beberagem. Miranez sentia cada vez mais gratidão e amor por aquela gente simples, filha de Deus, que, dentro do possível, tudo fazia em seu benefício.
Após anos de atuação entre aqueles que convivia, deu-se sua passagem para o plano espiritual num quadro de elevada suavidade. Os negros e os índios catequizados formavam extensa fila para beijar-lhe as mãos, que tanto os ajudaram a viver. Enquanto esteve lúcido, Miranez abençoava-os, um por um.
Nos momentos derradeiros, Fernando Miranez de Olivídeo percebeu a presença da mãe extremosa, bem como de sublimada entidade que ele prefere não identificar, por julgar não merecer tamanha honra.
Com lágrimas nos olhos, Miranez desprendeu –se do vaso físico e já fora dele, chorou de felicidade e agradecimento, por ter ingressado no Brasil pelas portas do amor e da caridade, que lhe foram abertas por Jesus.

LIVRO: Iniciação
AUTOR: João Nunes Maia 


Axé a todos
Emidio de Ogum
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Fernando Miranez de Olivídeo era filho de casal nobre do norte da Espanha.
Estudioso, aprofundava-se na história dos povos e nações da Terra. Deteve-se com interesse na descoberta das Américas.
Tinha notícias dos silvícolas, habitantes dessa nação nova e da escravidão em desenvolvimento, imposta pelos estrangeiros conquistadores, não aceita pelos primeiros, que se revoltavam.
Acompanhou interessadamente a implantação do trabalho escravo do homem de raça negra, levado à força do continente africano, que, por sua característica passiva, aceitava o grilhão e o açoite, servindo aos interesses daqueles que avidamente se apossaram das terras.
Fernando era conhecido de Felipe IV, rei de Espanha, que sabia de seus princípios de integridade e os dotes de elevada moral de que era portador.
Como tinha planos relativos a ele, durante uma entrevista que lhe concedera, em caráter íntimo, Felipe dá início à execução dos mesmos, falando-lhe convincente:
‘- Caro amigo, conheço vossos dotes e vos considero pessoa grata da Família Real, que conta com eles para defender seus interesses, bem como os de nossa Espanha.
Sabemos que Portugal começa a se levantar de novo e a sua ganância por ouro, prata e pedras preciosas é desmedida. Entende que ninguém tem direitos sobre as terras que, por acaso, um de seus navegadores descobriu. Por isso, resolvi constituir-vos meu representante.
Ide, meu filho, para a terra adornada pela cruz formada por cintilantes estrelas. Sereis os ouvidos do Rei e a boca de Espanha. Sereis dotado das instruções do que devereis fazer, bem como das credenciais que vos darão poderes de Chefe de Estado. Depois de tudo consumado, tereis a vossa glória; sereis imortalizado pela história e tereis o reconhecimento de toda a Espanha. Em nome dela, eu vos abençôo.’
Miranez, a tudo ouvia pacientemente, atento às intenções ocultas de Felipe, que ele bem identificava. Contrariava-o conviver com interesses da ordem que ele tanto subestimava, mas sua intuição o prevenia da oportunidade de realizar as suas íntimas aspirações e anseios, que eram conhecer e viver nas Terras de Santa Cruz, a fim de participar de sua preparação como Pátria do Evangelho.
O íntimo do seu ser era de total alegria, quando respondeu ao monarca:
‘- Majestade, conheço vosso ideal em relação à Espanha e rogo a Deus para vos ajudar a formar nobres idéias em benefício do povo. Eu vos agradeço de coração e serei eternamente grato pela oportunidade que ora me ofereceis de conhecer novas terras, as quais já admiro mesmo antes de vê-las. Garanto a Vossa Majestade que vamos fazer lá muitas coisas agradáveis a Deus.’
E curvando-se respeitosamente ante o soberano que o despedira entusiasticamente, retirou-se. O rei passaria uma noite rememorando as palavras de Fernando, sem conseguir entender o seu sábio e elevado sentido, sem, contudo, deixar de confiar no nobre súdito. Além disso, tinha interesse em sua saída da Espanha.
Assim, em um dia do ano de 1649, em que reinava em Roma Inocêncio X, ou João Batista Panfili, desembarcava no litoral do Brasil, secretamente, na condição de turista, o enviado do rei da Espanha.
Desceu Miranez pela primeira vez em corpo físico, nas terras com as quais sempre sonhara. Como que agindo segundo os ditames do coração, descalçou as botas e pisou a terra, sentindo-a sob seus pés, como se identificando com ela, recebendo-lhe o calor. Ao mesmo tempo, lágrimas que marejavam seus olhos caíam no solo generoso que as recebia, umedecendo-se com elas, ocorrendo desse modo uma permuta de valores, cujo resultados benéficos seriam constatados através dos tempos.
Acontecimento notável em sua chegada foi o fato de vários índios que se encontravam na praia virem ao seu encontro como que para recepcioná-lo, ao tempo em que o pajé da tribo a ele se dirigia e, apontando para o seu lado direito, exclamava: ‘Babagi! Babaji!’
Babaji era uma divindade indígena, tida pelos estranhos como uma lenda, que curava os enfermos através dos curandeiros das tribos. Era, na realidade, uma entidade espiritual e vinha ao lado de Fernando, ajudando-o a andar na areia onde seus pés deslizavam. Este, logo se viu cercado pelos novos amigos, que nele sentiam condições de proporcionar alívio aos sofrimentos e perseguições por que vinham passando, ante o domínio dos invasores estrangeiros.
Apesar de ainda não falar seu idioma, entendia-os pelos gestos e por intuição, o que denotava a afinidade existente. Assim, tendo se misturado com os nativos, ninguém suspeitava de sua condição de súdito espanhol a serviço secreto do rei.
Em curto espaço de tempo, Fernando já assimilara os diversos dialetos indígenas e africanos, movimentando-se com desenvoltura entre os humildes.
Em 1653, desceu no Maranhão, onde se encontrava Fernando, o temido e pregador, representante de Roma e de Portugal; Padre Antônio Vieira, que em seus famosos sermões acionava forças desconhecidas e dominava com facilidade aqueles que o ouviam. Era esse homem que Felipe IV, rei da Espanha, temia retornasse ao Brasil.
Em cumprimento à missão de que estava incumbido, comunicava ao seu soberano os acontecimentos que poderiam ser benéficos ao Brasil, omitindo notícias que poderiam prejudicar os povos que nele já lançavam raízes.
Certa noite, quando contemplava as estrelas, sobreveio forte lembrança da pátria distante, onde dispunha de inúmeros e valiosos bens, entre propriedades e terras abundantes. Enquanto meditava se deveria regressar à Espanha, sentiu uma voz suave, como se nascesse dentro de sua consciência, recomendando-lhe: ‘Vai, vende todos os teus bens, distribui-os entre os pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me.’ Surpreso, sentia que aquela voz era sua conhecida; mas, de onde? Parecia-lhe que já a escutara antes, mas quando? Achava-se perdido no oceano dos séculos. Contudo, a voz fez-se ouvir novamente: ‘Fernando; podes vender todas as tuas posses na Espanha e distribuir o dinheiro entre os necessitados de tua pátria. Os daqui, necessitando passar pelos processos renovadores, precisam mais da tua riqueza mental, do resultado de tuas mãos operosas, do tesouro armazenado em teu coração e da tua presença confortadora’.
Miranez, então, resolveu enviar procuração a amigos de sua confiança, autorizando-os a dispor dos seus bens e distribuir o resultado entre os carentes e sofredores da Península Ibérica.
Não chegou a ficar sabendo o que foi feito de suas riquezas materiais, porém, passou a viver um estado de consciência tranqüila, única riqueza que acompanha seus portadores eternidade a fora.
Após aquelas providências, sua vida em muito mudou. Aquele homem culto e fascinante foi descoberto pelos catequizadores entre os índios e os escravos africanos, como pastor de dois rebanhos. Alguns índios e negros não se davam bem, hostilizando-se mutuamente. Trabalhando arduamente pela aproximação e convivência das duas raças, em pouco tempo seus esforços eram coroados de êxito, quando índios e negros festejavam juntos suas tradições, unidos pelos laços da amizade e do sofrimento.
Miranez, então, passou a freqüentar o grupo de catequizadores por encontrar ali campo propício à prática dos seus ideais. Como resultado de seu trabalho e esforço conjunto, mais tarde foi promulgada, em 1680, a lei de proteção aos índios.
Junto com jovens escravos, que vez por outra recebiam permissão de seus senhores para visitarem seus pais e avós, Miranez, certa manhã, buscou os casebres para rever seus tutelados, levando-lhes o conforto de sua palavra fraterna e confortadora. Todos o tinham como ‘Pai Branco’, ‘Filho do Sol’ ou ‘Homem que veio da Luz’.
Ao levantar a cabeça, fixando o olhar nas nuvens, como costumava fazer, punha o coração ao alto e a mente em sintonia com o Todo Poderoso. O ambiente se asserenava, envolvendo em suaves vibrações aqueles que o cercavam.
Ao regressar, passeando a beira de murmurante regato de águas cristalinas, acompanhado, como de costume, por uma velha preta, ao passar beirando um barranco onde a vegetação se adensava, foi atacado por perigosa e venenosa jaracussu, cuja picada comumente resulta mortal, sendo atingido na perna, abaixo do joelho.
A preta velha viu o réptil dando o bote e a água do riacho tingir-se de sangue. Saiu a correr para o povoado em busca da velha benzedeira Pari, que nos seus noventa anos a muitos salvara pelos seus dons de curar várias enfermidades. Ao ser localizada e informada do ocorrido, a velha Pari, já acostumada a essas emergências, apanhou alguns apetrechos e saiu pressurosa em socorro ao Pai Branco.
Miranez, já com muita experiências vividas entre índios e negros, também tomara seus cuidados: lembrando-se de um cordão com vários nós intercalados que carregava em seu bornal, tomou-o e com ele amarrou a perna ofendida, na altura do joelho, impedindo a circulação. Tal cordão ele recebera de sua mãe querida, nos minutos finais de sua vida na terra, explicando-lhe sua origem. Pertencera a um bondoso pároco português que se dedicava à cura. Em seus últimos momentos, disse-lhe: ‘Meu filho, quando o velho padre me passou este cordão, de seus dedos desprendiam-se pequenos raios de luz que eram absorvidos pelos nós do cordão. Carreguei-o comigo por vários anos e muitas vezes utilizei-o em favor do alívio das pessoas. Agora, passo-o a você, para que seja usado em seus momentos de dificuldade e de aflições.’ Abençoando-o, desfalecera e regressara à pátria espiritual.
A negra Pari, chegando, fez com que Miranez se assentasse num lajedo, levantasse os olhos e, como se conversasse com alguém invisível, pronunciava palavras ininteligíveis. Em dado momento, colocou os lábios sobre o ferimento e sugou por várias vezes o sangue já enegrecido, cuspindo-o para o lado. A seguir, colocou algumas ervas na boca, mastigou-as e tornou a cuspir, lavando-a nas águas do riacho. Torna a repetir a operação, colocando as ervas maceradas sobre o ferimento, que logo parou de doer.
Com um suspiro profundo e se recompondo, a boa escrava retirou o cordão benfazejo da perna de Miranez, ajudou-o a caminhar em demanda a seu casebre, onde o fez ingerir uma beberagem. Miranez sentia cada vez mais gratidão e amor por aquela gente simples, filha de Deus, que, dentro do possível, tudo fazia em seu benefício.
Após anos de atuação entre aqueles que convivia, deu-se sua passagem para o plano espiritual num quadro de elevada suavidade. Os negros e os índios catequizados formavam extensa fila para beijar-lhe as mãos, que tanto os ajudaram a viver. Enquanto esteve lúcido, Miranez abençoava-os, um por um.
Nos momentos derradeiros, Fernando Miranez de Olivídeo percebeu a presença da mãe extremosa, bem como de sublimada entidade que ele prefere não identificar, por julgar não merecer tamanha honra.
Com lágrimas nos olhos, Miranez desprendeu –se do vaso físico e já fora dele, chorou de felicidade e agradecimento, por ter ingressado no Brasil pelas portas do amor e da caridade, que lhe foram abertas por Jesus.

LIVRO: Iniciação
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Fernando Miranez de Olivídeo era filho de casal nobre do norte da Espanha.
Estudioso, aprofundava-se na história dos povos e nações da Terra. Deteve-se com interesse na descoberta das Américas.
Tinha notícias dos silvícolas, habitantes dessa nação nova e da escravidão em desenvolvimento, imposta pelos estrangeiros conquistadores, não aceita pelos primeiros, que se revoltavam.
Acompanhou interessadamente a implantação do trabalho escravo do homem de raça negra, levado à força do continente africano, que, por sua característica passiva, aceitava o grilhão e o açoite, servindo aos interesses daqueles que avidamente se apossaram das terras.
Fernando era conhecido de Felipe IV, rei de Espanha, que sabia de seus princípios de integridade e os dotes de elevada moral de que era portador.
Como tinha planos relativos a ele, durante uma entrevista que lhe concedera, em caráter íntimo, Felipe dá início à execução dos mesmos, falando-lhe convincente:
‘- Caro amigo, conheço vossos dotes e vos considero pessoa grata da Família Real, que conta com eles para defender seus interesses, bem como os de nossa Espanha.
Sabemos que Portugal começa a se levantar de novo e a sua ganância por ouro, prata e pedras preciosas é desmedida. Entende que ninguém tem direitos sobre as terras que, por acaso, um de seus navegadores descobriu. Por isso, resolvi constituir-vos meu representante.
Ide, meu filho, para a terra adornada pela cruz formada por cintilantes estrelas. Sereis os ouvidos do Rei e a boca de Espanha. Sereis dotado das instruções do que devereis fazer, bem como das credenciais que vos darão poderes de Chefe de Estado. Depois de tudo consumado, tereis a vossa glória; sereis imortalizado pela história e tereis o reconhecimento de toda a Espanha. Em nome dela, eu vos abençôo.’
Miranez, a tudo ouvia pacientemente, atento às intenções ocultas de Felipe, que ele bem identificava. Contrariava-o conviver com interesses da ordem que ele tanto subestimava, mas sua intuição o prevenia da oportunidade de realizar as suas íntimas aspirações e anseios, que eram conhecer e viver nas Terras de Santa Cruz, a fim de participar de sua preparação como Pátria do Evangelho.
O íntimo do seu ser era de total alegria, quando respondeu ao monarca:
‘- Majestade, conheço vosso ideal em relação à Espanha e rogo a Deus para vos ajudar a formar nobres idéias em benefício do povo. Eu vos agradeço de coração e serei eternamente grato pela oportunidade que ora me ofereceis de conhecer novas terras, as quais já admiro mesmo antes de vê-las. Garanto a Vossa Majestade que vamos fazer lá muitas coisas agradáveis a Deus.’
E curvando-se respeitosamente ante o soberano que o despedira entusiasticamente, retirou-se. O rei passaria uma noite rememorando as palavras de Fernando, sem conseguir entender o seu sábio e elevado sentido, sem, contudo, deixar de confiar no nobre súdito. Além disso, tinha interesse em sua saída da Espanha.
Assim, em um dia do ano de 1649, em que reinava em Roma Inocêncio X, ou João Batista Panfili, desembarcava no litoral do Brasil, secretamente, na condição de turista, o enviado do rei da Espanha.
Desceu Miranez pela primeira vez em corpo físico, nas terras com as quais sempre sonhara. Como que agindo segundo os ditames do coração, descalçou as botas e pisou a terra, sentindo-a sob seus pés, como se identificando com ela, recebendo-lhe o calor. Ao mesmo tempo, lágrimas que marejavam seus olhos caíam no solo generoso que as recebia, umedecendo-se com elas, ocorrendo desse modo uma permuta de valores, cujo resultados benéficos seriam constatados através dos tempos.
Acontecimento notável em sua chegada foi o fato de vários índios que se encontravam na praia virem ao seu encontro como que para recepcioná-lo, ao tempo em que o pajé da tribo a ele se dirigia e, apontando para o seu lado direito, exclamava: ‘Babagi! Babaji!’
Babaji era uma divindade indígena, tida pelos estranhos como uma lenda, que curava os enfermos através dos curandeiros das tribos. Era, na realidade, uma entidade espiritual e vinha ao lado de Fernando, ajudando-o a andar na areia onde seus pés deslizavam. Este, logo se viu cercado pelos novos amigos, que nele sentiam condições de proporcionar alívio aos sofrimentos e perseguições por que vinham passando, ante o domínio dos invasores estrangeiros.
Apesar de ainda não falar seu idioma, entendia-os pelos gestos e por intuição, o que denotava a afinidade existente. Assim, tendo se misturado com os nativos, ninguém suspeitava de sua condição de súdito espanhol a serviço secreto do rei.
Em curto espaço de tempo, Fernando já assimilara os diversos dialetos indígenas e africanos, movimentando-se com desenvoltura entre os humildes.
Em 1653, desceu no Maranhão, onde se encontrava Fernando, o temido e pregador, representante de Roma e de Portugal; Padre Antônio Vieira, que em seus famosos sermões acionava forças desconhecidas e dominava com facilidade aqueles que o ouviam. Era esse homem que Felipe IV, rei da Espanha, temia retornasse ao Brasil.
Em cumprimento à missão de que estava incumbido, comunicava ao seu soberano os acontecimentos que poderiam ser benéficos ao Brasil, omitindo notícias que poderiam prejudicar os povos que nele já lançavam raízes.
Certa noite, quando contemplava as estrelas, sobreveio forte lembrança da pátria distante, onde dispunha de inúmeros e valiosos bens, entre propriedades e terras abundantes. Enquanto meditava se deveria regressar à Espanha, sentiu uma voz suave, como se nascesse dentro de sua consciência, recomendando-lhe: ‘Vai, vende todos os teus bens, distribui-os entre os pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me.’ Surpreso, sentia que aquela voz era sua conhecida; mas, de onde? Parecia-lhe que já a escutara antes, mas quando? Achava-se perdido no oceano dos séculos. Contudo, a voz fez-se ouvir novamente: ‘Fernando; podes vender todas as tuas posses na Espanha e distribuir o dinheiro entre os necessitados de tua pátria. Os daqui, necessitando passar pelos processos renovadores, precisam mais da tua riqueza mental, do resultado de tuas mãos operosas, do tesouro armazenado em teu coração e da tua presença confortadora’.
Miranez, então, resolveu enviar procuração a amigos de sua confiança, autorizando-os a dispor dos seus bens e distribuir o resultado entre os carentes e sofredores da Península Ibérica.
Não chegou a ficar sabendo o que foi feito de suas riquezas materiais, porém, passou a viver um estado de consciência tranqüila, única riqueza que acompanha seus portadores eternidade a fora.
Após aquelas providências, sua vida em muito mudou. Aquele homem culto e fascinante foi descoberto pelos catequizadores entre os índios e os escravos africanos, como pastor de dois rebanhos. Alguns índios e negros não se davam bem, hostilizando-se mutuamente. Trabalhando arduamente pela aproximação e convivência das duas raças, em pouco tempo seus esforços eram coroados de êxito, quando índios e negros festejavam juntos suas tradições, unidos pelos laços da amizade e do sofrimento.
Miranez, então, passou a freqüentar o grupo de catequizadores por encontrar ali campo propício à prática dos seus ideais. Como resultado de seu trabalho e esforço conjunto, mais tarde foi promulgada, em 1680, a lei de proteção aos índios.
Junto com jovens escravos, que vez por outra recebiam permissão de seus senhores para visitarem seus pais e avós, Miranez, certa manhã, buscou os casebres para rever seus tutelados, levando-lhes o conforto de sua palavra fraterna e confortadora. Todos o tinham como ‘Pai Branco’, ‘Filho do Sol’ ou ‘Homem que veio da Luz’.
Ao levantar a cabeça, fixando o olhar nas nuvens, como costumava fazer, punha o coração ao alto e a mente em sintonia com o Todo Poderoso. O ambiente se asserenava, envolvendo em suaves vibrações aqueles que o cercavam.
Ao regressar, passeando a beira de murmurante regato de águas cristalinas, acompanhado, como de costume, por uma velha preta, ao passar beirando um barranco onde a vegetação se adensava, foi atacado por perigosa e venenosa jaracussu, cuja picada comumente resulta mortal, sendo atingido na perna, abaixo do joelho.
A preta velha viu o réptil dando o bote e a água do riacho tingir-se de sangue. Saiu a correr para o povoado em busca da velha benzedeira Pari, que nos seus noventa anos a muitos salvara pelos seus dons de curar várias enfermidades. Ao ser localizada e informada do ocorrido, a velha Pari, já acostumada a essas emergências, apanhou alguns apetrechos e saiu pressurosa em socorro ao Pai Branco.
Miranez, já com muita experiências vividas entre índios e negros, também tomara seus cuidados: lembrando-se de um cordão com vários nós intercalados que carregava em seu bornal, tomou-o e com ele amarrou a perna ofendida, na altura do joelho, impedindo a circulação. Tal cordão ele recebera de sua mãe querida, nos minutos finais de sua vida na terra, explicando-lhe sua origem. Pertencera a um bondoso pároco português que se dedicava à cura. Em seus últimos momentos, disse-lhe: ‘Meu filho, quando o velho padre me passou este cordão, de seus dedos desprendiam-se pequenos raios de luz que eram absorvidos pelos nós do cordão. Carreguei-o comigo por vários anos e muitas vezes utilizei-o em favor do alívio das pessoas. Agora, passo-o a você, para que seja usado em seus momentos de dificuldade e de aflições.’ Abençoando-o, desfalecera e regressara à pátria espiritual.
A negra Pari, chegando, fez com que Miranez se assentasse num lajedo, levantasse os olhos e, como se conversasse com alguém invisível, pronunciava palavras ininteligíveis. Em dado momento, colocou os lábios sobre o ferimento e sugou por várias vezes o sangue já enegrecido, cuspindo-o para o lado. A seguir, colocou algumas ervas na boca, mastigou-as e tornou a cuspir, lavando-a nas águas do riacho. Torna a repetir a operação, colocando as ervas maceradas sobre o ferimento, que logo parou de doer.
Com um suspiro profundo e se recompondo, a boa escrava retirou o cordão benfazejo da perna de Miranez, ajudou-o a caminhar em demanda a seu casebre, onde o fez ingerir uma beberagem. Miranez sentia cada vez mais gratidão e amor por aquela gente simples, filha de Deus, que, dentro do possível, tudo fazia em seu benefício.
Após anos de atuação entre aqueles que convivia, deu-se sua passagem para o plano espiritual num quadro de elevada suavidade. Os negros e os índios catequizados formavam extensa fila para beijar-lhe as mãos, que tanto os ajudaram a viver. Enquanto esteve lúcido, Miranez abençoava-os, um por um.
Nos momentos derradeiros, Fernando Miranez de Olivídeo percebeu a presença da mãe extremosa, bem como de sublimada entidade que ele prefere não identificar, por julgar não merecer tamanha honra.
Com lágrimas nos olhos, Miranez desprendeu –se do vaso físico e já fora dele, chorou de felicidade e agradecimento, por ter ingressado no Brasil pelas portas do amor e da caridade, que lhe foram abertas por Jesus.

LIVRO: Iniciação
AUTOR: João Nunes Maia 


Axé a todos
Emidio de Ogum
http://espadadeogum.blogspot.com


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publicado por espadadeogum às 19:43
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